terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ouro de Tolo

“Ouro de Tolo” é uma canção composta pelo gênio Raul Seixas (1945-1989).

A explosão do compacto com Ouro de Tolo, em 1973, é que fez a consagração de Raul Seixas e abriu as portas para seu primeiro LP de sucesso, Krig-Há, Bandolo! (o grito do Tarzan).

Raul dizia que a maior satisfação de sua vida era ver os operários da construção civil cantando Ouro de Tolo e criando novas versões adaptadas ao seu cotidiano. Dentro dessa tradição, Zé Ramalho foi um dos grandes intérpretes de Ouro de Tolo (além é claro do Raulzito). Ele também interpretou, de forma brilhante um outro grande sucesso nacional, de tema semelhante a “Ouro de Tolo”, “Construção”. Quando se pergunta a Zé Ramalho de qual das duas músicas ele gosta mais (“Ouro de Tolo” ou “Construção”), ele responde com segurança: “Ouro de Tolo, claro. Pois em Ouro de Tolo a pessoa venceu na vida como todo cidadão sonha, mas quer ainda MUITO MAIS do que apenas isto. Enquanto em Construção o pobre operário que viu sua filha ser recusada na escola por estar sem sapatos, está amargurado, destruído e só encontra refúgio na Igreja”.


OURO DE TOLO
(Raul Seixas)

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

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