quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Triste Berrante

"Triste Berrante" foi composta por Adauto Santos (1940-1999) e incluída em seu disco homônimo lançado em 1978.

Esta música, ícone do cancioneiro regional brasileiro, foi regravada por muitos artistas brasileiros, como as Irmãs Galvão e a dupla Pena Branca e Xavantinho.



Adauto Santos


Sucesso popular, também chegou à televisão como tema da novela "Pantanal" (1990 - Adauto Santos e Solange Maria), folhetim que fez enorme sucesso na tv brasileira.

TRISTE BERRANTE
(Adauto Santos)

Já vai bem longe esse tempo
bem sei
Tão longe que até penso que
eu sonhei
Que lindo quando a gente ouvia
distante
O som daquele triste berrante
E um boiadeiro a gritar
Eiá!
E eu ficava ali na beira
da estrada
Vendo caminhar a boiada
Até o último boi passar
Ali, passava boi, passava boiada
tinha uma palmeira
na beira da estrada
onde foi cravado muito coração
Mas sempre foi assim
E sempre foi assim
E sempre será
O novo vem e o velho tem
que parar
O progresso cobriu a poeira
da estrada
E esse tudo que é o meu nada
Hoje tenho que acatar
E chorar
Mas mesmo vendo gente,
carros passando
Meus olhos estão enxergando
Uma boiada a passar.


                                          Pena Branca e Xavantinho



                                      Solange Maria e Adauto Santos



                                                   Adauto Santos



                                                      Sérgio Reis



                                                         Wando



                                                      As Galvão



                                           Padre Fábio de Mello



Eu Não Sou Daqui (Eu Sou de Niterói)

O samba em homenagem à cidade de Niterói foi composto em 1941 por Wilson das Neves (1936) e Ataulfo Alves (1909-1969).

Wilson das Neves
"Eu Não Sou Daqui" foi gravado originalmente por Aracy de Almeida e, posteriormente, por Cristina Buarque. Recebeu mais recentemente uma regravação da niteroiense Zélia Duncan.

Ataulfo Alves
EU NÃO SOU DAQUI (Eu Sou de Niterói)
(Wilson das Neves / Ataulfo Alves)

Eu não daqui
Eu sou de Niterói
Sinto muito , mas não posso
Aceitar o seu amor
Na terra de Araribóia
É que eu tenho quem me quer
Passe bem, seja feliz, oi
E até quando Deus quiser
Juro, tenho compromisso
Seu moço, preste atenção
Do outro lado da Baía
Empenhei meu coração
Vou embora até loguinho
Por favor, não leve a mal
Estou em cima da hora
A barca deu o sinal.


                                                    Aracy de Almeida


                                                   Cristina Buarque










Pavão Misterioso

"Pavão MIsterioso" foi composta pelo cearense Ednardo (1945) em 1974 e incluída na trilha sonora da novela "Saramandaia" (1976 e 2013), da TV Globo.

Ednardo
A canção foi composta com base na literatura de cordel e possui mais de 20 regravações, tanto no Brasil (Belchior, Elba Ramalho) como no exterior (Paul Mauriat). Lançada em plena vigência da ditadura militar em nosso país, possui uma crítica ferrenha ao autoritarismo e a ausência da liberdade individual.

O cordel no qual Ednardo baseou sua grande composição chama-se "O Romance do Pavão Misterioso", escrito por José Camelo de Melo Rezende, em 1923. Conta uma aventura aparentemente despretensiosa, mas de grande apelo popular, com raízes nos contos das Mil e uma Noites. "O Pavão Misterioso” possui 141 estrofes de seis versos (sextilhas) de sete sílabas (redondilha maior). É narrada a história da Condessa Creuza, a moça mais bonita da Grécia, conservada pelo pai trancada desde a infância no mais alto quarto de um sobrado.Uma vez no ano, a moça aparece por uma hora ao povo, que vem de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega até a Turquia, onde mora Evangelista, que se apaixona pela bela figura da jovem. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso do título – a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades.

A música é considerada sagrada pelos índios do Xingu nos rituais religiosos. Também usada por outros tantos como hino à liberdade, a beleza humana e sua capacidade de realizar a vida acima das aparentes impossibilidades.

PAVÃO MISTERIOSO
(Ednardo)

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse seu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...(2x)

Pavão misterioso
Nessa cauda
Aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda
Quero olhar...

Pavão misterioso
Meu pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse seu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...

Pavão misterioso
Meu pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não...

Pavão misterioso
Meu pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar...

Fonte: O Planeta é nosso.


                                                         Ednardo


                                                    Fernanda Takai


                                                 Ney Matogrosso


                                                         Paul Mauriat

                                                    Elba Ramalho


Jura Secreta

"Jura Secreta" é uma composição de Abel Silva (1945) e Sueli Costa (1943).

Abel Silva
Mesmo tendo ocupado quartos de frente do legendário Solar da Fossa e, anos depois, sido vizinhos em Ipanema, Sueli Costa e Abel Silva jamais haviam feito um música juntos antes de “Jura Secreta”. Foi Abel quem procurou Sueli, por meio de uma carta com uma letra da qual nasceria esta canção. Como grande parte do que se escrevia na ocasião, a letra expunha de forma metafórica reflexões sobre o amordaçamento geral imposto pela ditadura. Eram versos estranhos, aparentemente contraditórios, que afirmavam negações e negavam afirmações: “Só uma coisa me entristece/ o beijo de amor que eu não roubei/ (...)/ nada do que eu quero me suprime/ do que por não saber inda não quis/ (...)/ só o que me cega, o que me faz infeliz/ é o brilho do olhar que não sofri/ (...)/ só uma palavra me devora/ aquela que o coração não diz...” Nestes dois últimos versos, o âmago do poema, Abel na se referia uma palavra específica, mas ao (não) uso da palavra, ou seja, ao silêncio involuntário.

Sueli Costa
Lida a carta, Sueli sentiu no primeiro momento como deveria ser a melodia, compondo de estalo a terna canção, que seria levada com outras inéditas para Maria Bethânia, na época preparando o show “Pássaro da Manhã”, no Teatro da Praia. Todavia, como Bethânia optou por “Coração Ateu”, gravado por ela em 75, Sueli pôde então atender Simone, que selecionava repertório para um novo disco e acabou escolhendo “Face a Face” e “Jura Secreta”.

A gravação de “Jura Secreta” foi atribulada, tendo acontecido duas tentativas, uma com um grupo de músicos, a outra com dois violões, ambas frustrantes, o que deixou Simone tão perturbada que chegou a menosprezar a letra de Abel. Daí os ânimos só viriam a serenar com uma intervenção de Gozaguinha, seguida da sugestão de Sueli, para que a cantora gravasse apenas com o teclado de Gilson Peranzzetta, que criaria para a composição um acompanhamento bluesy ao piano Fender. Logo na primeira tentativa Simone chegou a se engasgar de emoção, prevalecendo a segunda, que acabou sendo o grande sucesso do álbum Face a face.

Isso foi uma surpresa para os incrédulos compositores que sabiam ser “Jura Secreta” uma dessas canções classificadas como difíceis na gíria musical. Sua leitura seria até recomendada por psiquiatras para ajudar seus pacientes no processo de auto conhecimento.

Tempos depois do lançamento, Simone diria o recado a Sueli que se tivesse composto “Jura Secreta” trocaria o título para “Auto Retrato”.

Entre as gravações desta canção destacam-se as da autora, no elepê Louça fina e a de Fagner, em Quem viver chorará, além da de Simone, naturalmente.

"Jura Secreta" esteve presente na trilha sonora das novelas: "Memórias de Amor" (Simone / 1979), "Da Cor do Pecado" (Zélia Duncan / 2004)

Fonte: A CANÇÃO NO TEMPO(Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo)

JURA SECRETA
(Sueli Costa e Abel Silva)

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada que eu quero me suprime
De que por não saber
'Inda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Sol que me cega
O que me faz infeliz
É o brilho do olhar
Que não sofri.


                                           Simone - "Jura Secreta" / 1977

                                         
                                         Zélia Duncan e Simone - "Jura Secreta"


                                        Fagner - "Jura Secreta" / 1978


                                          Wanderléa - "Jura Secreta"


                                         Zizi Possi - "Jura Secreta"


Retalhos de Cetim

“Retalhos de Cetim” foi composto ao tempo em que Benito Di Paula(1941) morava no bairro paulistano da Bela Vista. Curiosamente, embora pianista Benito o compôs ao violão.

Lançado em um show que ele fazia no Teleco-Teco, “Retalhos de Cetim” agradaria em cheio os habituées da casa, entre os quais se incluíam os sambistas Ciro Monteiro e Monsueto.

Foi graças ao prestígio deste samba que Benito seria convidado a gravar na Copacabana, embora, paradoxalmente, a música escolhida para o compacto de estréia tenha sido “Ela”, mais tarde também gravada por Jair Rodrigues.

Desprezado por ser considerado muito romântico, “Retalhos de Cetim” só entraria no segundo compacto, iniciando de imediato sua escalada para o sucesso, que projetou o nome do autor no país e até no exterior, onde a composição ganhou gravações como as realizadas pela orquestra de Paul Mauriat e o guitarrista americano Charlie Byrd.

“Retalhos de Cetim” conta a história de um sambista que ensaia o ano inteiro, compra surdo, tamborim e uma fantasia de retalhos de cetim para uma cabrocha que jurou desfilar por ele(“Gastei tudo em fantasia / era só o que eu queria / e ela jurou desfilar por mim”). Mas, como a cabrocha não cumpre a promessa, Benito deu ao samba um tom lamentoso, o que de certa forma induz a participação da platéia nas pausas, uma das razões que o ajudaram a se popularizar: “Mas chegou (mas chegou) o carnaval (o carnaval) / e ela não desfilou / eu chorei na avenida, eu chorei / não pensei que mentia / a cabrocha que eu tanto amei.”

Fonte: MPB Cifrantiga.

RETALHOS DE CETIM
(Benito Di Paula)

Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era só o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim,
Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.

Cantores do Rádio

A música foi composta por Alberto Ribeiro (1902-1971), João de Barro, o Braguinha (1907-2006), e Lamartine Babo (1904-1963).

“Segundo o pesquisador Suetônio Soares Valença, a marcha "Cantores do Rádio" foi composta dentro de um ônibus, depois de uma noitada em que os três haviam perdido todo o dinheiro apostado no Cassino da Urca. Entusiasmado com a canção concebida no banco de trás do lotação, o trocador teria dispensado-os dos vinténs da passagem."

"Cantores do Rádio" representou a primeira e única vez na qual as irmãs Carmen e Aurora Miranda apareceram juntas em um filme. Elas interpretaram a canção, enorme sucesso gravado em 1936, no filme "Alo, Alo, Carnaval".

Além de estar presente na trilha sonora do filme "Alo, Alo Carnaval" ( Aurora e Carmen Miranda / 1936 ), esteve também na trilha do filme "Quando o Carnaval Chegar" ( Chico Buarque, Maria Bethânia e Nara Leão / 1972 ).

Fonte: Cliquemusic.

CANTORES DO RÁDIO
( Alberto Ribeiro / Braguinha / Lamartine Babo )

Nós somos as cantoras do rádio
Levamos a vida a cantar
De noite emabalamos teu sono
De manhã nós vamos te acordar

Nós somos as cantoras do rádio
Nossas canções, cruzando um espaço azul,
Vão reunindo
Num grande abraço
Corações de norte a sul

Canto pelos espaços afora
Vou semeando cantigas
Dando alegria a quem chora

Canto pois sei
Que a minha canção
Faz estancar a tristeza que mora
No teu coração

Canto pra te ver mais contente
Pois a ventura dos outros
É a alegria da gente

Canto e sou feliz só assim
E agora peço que cantem
Um pouquinho pra mim.

Marcha da Quarta Feira de Cinzas

"Marcha da Quarta-Feira de Cinzas" foi composta em 1963 por Carlos Lyra (1936) e Vinícius de Moraes (1913/1980).

A melodia foi composta por Carlos Lyra. Vinícius de Moraes então colocou letra nesta pérola da MPB.

Composta antes de 1964, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC (Centro Popular de Cultura) em que Carlos Lyra incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil...”).

Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou...” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a platéia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão, teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 1963.

A canção fez parte da trilha sonora da novela "Fera Ferida" Vol.2 ( 1993/94 - Leila Pinheiro).

Fonte: A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34.

MARCHA DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
( Carlos Lyra / Vinícius de Moraes )

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar
De que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz.