quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cajuína

Em "Cajuina", o magistral Caetano Veloso (1942), expressa a sua dor e reflexão, diante da morte do amigo e idealizador da Tropicália, o poeta piauiense Torquato Neto. Torquato Neto, nacionalista, revolucionário, visionário que fez a cabeça dessa geração tropicalista, Chico, Caetano, Gil, e tantos outros. Depois, cai em solidão profunda. Aventura-se no cinema novo com Glauber Rocha e, após ver todos os seus amigos exilados, escreve um bilhete após ver a carnavalização em Holywood com Carmem Miranda,portuguesa, se passando por brasileira(tropicalista) com a cabeça cheia de frutas tropicais. Escreve um bilhete, “morri porque caiu um abacaxi na cabeça do meu pau” e liga as torneiras de gás no Rio e comete suicídio.

O intelectual e ativista cultural, Torquato Neto, há muito não falava com Caetano. Caetano então vai a Teresina por ocasião do enterro de Torquato e faz a música. Existirmos… uma reflexão ” viver pra quê? a que se destina?…”

Segundo relato do próprio Caetano (ver vídeo relacionado) o pai do Torquato o recebeu em sua casa em Teresina e lhe ofereceu um copo de cajuína, bebida característica do local. Caetano chorava muito eo pai de Torquato o consolava. Em um determinado momento o pai se ausenta e retorna com um “rosa pequenina”. Caetano então refletindo sobre aquele momento ganha inspiração para compor.

Agradece a Torquato por ter lhe dado a rosa pequenina, (cultura) ou conhecimento. O poeta magro, como todos os tropicalistas da época” apenas a matéria vida era tão fina”. Lembranças e reminiscências de um passado não muito distante que agora se avoluma com a morte do amigo. Caetano compara seu olhar cristalino e puro com a Cajuína, bebida original do Piauí que caracteriza-se por ser a “essência”, o”supra-sumo” da pureza do caju. Um elemento nordestino, puro, resistente, cristalino que não se turva.

CAJUÍNA
(Caetano Veloso)

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina.

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