quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cabocla Tereza

Esta é uma das toadas históricas da imortal dupla Raul Torres (1906 - 1970) e João Pacífico (1909 - 1998).

Os dois compositores foram criadores do gênero "Toada Histórica", o famoso "falar e cantar" que imortalizou "Chico Mulato" e "Cabocla Tereza", músicas essas que enfrentaram dificuldades técnicas no início, pois, como as músicas duravam mais de 3 minutos, não caberiam jamais em apenas um lado do disco. Após uma estudada e experimentada "maior aproximação entre os sulcos" do disco, finalmente foi gravada e os discos de "Chico Mulato" foram tocados nas rádios, alcançado estrondoso sucesso. Daí para "Cabocla Tereza", foi "um pulo", pois o diretor da gravadora passou a querer "mais daquelas de falar e cantar".

João Pacífico conta que uma vez Mister Evans, chairman da Colúmbia no Brasil, mandou cortar um pouco a orquestração, apertar um pouquinho, imprimir um pouco mais depressa, enfim, mandou dar um jeito para que a música coubesse todinha em um lado do 78RPM, mas "o interessante é que ele gostou, e mandou me avisar que quando fizesse outras músicas, fizesse daquele jeito de – e capricha no sotaque – falar e cantar. Segui o conselho e logo em seguida não só fiz com o proseado e canto, mas fiz a minha primeira vítima em música: matei a personagem." A música é a hoje clássica “Cabocla Tereza”, gravada em 1936.

A primeira gravação de “Cabocla Tereza” foi feita pelo Raul Torres (proseado) e Florêncio (parte cantada), é até hoje ainda gravada. Sem dúvida alguma, é uma das composições mais conhecidas de Pacífico. A história de um sujeito que, enciumado, possessivo, acaba matando a amada porque ela "felicidade não quis".
Esta é uma das músicas mais conhecidas do cancioneiro nacional. Composta cerca de quatro anos antes da data de gravação, Cabocla Tereza se encaixa perfeitamente na argumentação que João Pacífico dá à aceitação das suas músicas. Para ele, o caboclo gosta de história completa, gosta de música que tem começo, meio e fim, gosta dessa coisa de folhetim, de história como se fosse notícia de jornal.
"O caboclo é muito simples nisso, ele gosta muito que uma música conte uma história, uma história com a qual ele se identifique. Eu percebi isso quase que sem querer, apenas sentindo a aceitação do público pela minha música", conta Pacífico.
Existe um questão que intriga o compositor com relação a esta música: "Olha, quase todas as duplas do país já gravaram músicas minhas e, ainda hoje, chega gente aqui em casa e fala: "Seu João, a gente queria gravar Cabocla Tereza", e eu respondo: mas a Cabocla Tereza já tá velha, já teve enfarte. Tem tanta coisa nova por aí, mas não, eles insistem e eu tenho que deixar."

Velha, enfartada ou não, o fato é que esta música virou roteiro e depois filme. Filme que deu chances para que João Pacífico pudesse utilizar suas qualidades de compositor num trabalho, para ele, até então inédito, aliás, dois: trabalhar sob encomenda e fazer uma trilha para cinema. Para isso o compositor assistiu ao copião e depois sentou – era um início de noite – numa austera mesa de jacarandá que existe em sua sala de visitas. Quando começou a amanhecer o dia, o trabalho estava feito: cada trecho – para ele - importante do filme tinha uma música que se encaixava com o clima. Pacífico aproveita a deixa do filme e reclama que a Chantecler, gravadora que lançou o disco, só lhe deu um, que foi roubado. em 1982., O filme com o mesmo nome,foi dirigido e estrelado por Sebastião Pereira, com Zélia Martins no papel de Tereza e a participação especial de Jofre Soares.

CABOCLA TEREZA
( Raul Torres / João Pacífico)

"Lá no alto da montanha
Numa casinha estranha
Toda feita de sapê
Parei numa noite à cavalo
Pra mór de dois estalos
Que ouvi lá dentro bate
Apeei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito
Uma voz cheia de dor:
"Vancê, Tereza, descansa
Jurei de fazer a vingança
Pra morte do meu amor"
Pela réstia da janela
Por uma luzinha amarela
De um lampião quase apagando
Vi uma cabocla no chão
E um cabra tinha na mão
Uma arma alumiando
Virei meu cavalo a galope
Risquei de espora e chicote
Sangrei a anca do tar
Desci a montanha abaixo
Galopando meu macho
O seu doutô fui chamar
Vortamo lá pra montanha
Naquela casinha estranha
Eu e mais seu doutô
Topemo o cabra assustado
Que chamou nóis prum lado
E a sua história contou"
Há tempo eu fiz um ranchinho
Pra minha cabocla morá
Pois era ali nosso ninho
Bem longe deste lugar.
No arto lá da montanha
Perto da luz do luar
Vivi um ano feliz
Sem nunca isso esperá
E muito tempo passou
Pensando em ser tão feliz
Mas a Tereza, doutor,
Felicidade não quis.
O meu sonho nesse oiá
Paguei caro meu amor
Pra mór de outro caboclo
Meu rancho ela abandonou.
Senti meu sangue fervê
Jurei a Tereza matá
O meu alazão arriei
E ela eu vô percurá.
Agora já me vinguei
É esse o fim de um amor
Esta cabocla eu matei
É a minha história, dotor.

Fonte: Boa Música Brasileira / Viola Caipira.

3 comentários:

  1. A cabocla Teresa seria a mesma "tar de caboclinha" do "Chico Mulato"?

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    1. Com certeza sim. Ela traiu o Chico Mulato com o próprio irmão dele. Enquanto o Chico preferiu morrer de paixão, seu irmão se casou com a caboclinha. Mas também foi traído e, com um ano de casado, vingou-se com sangue. Matou a tal Cabocla Tereza.

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  2. A cabocla Teresa seria a mesma "tar de caboclinha" do "Chico Mulato"?

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