quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Mucuripe

A música “Mucuripe”, um grande sucesso composto pelos cearenses Fagner (1949) e Belchior (1946) teve, na verdade, duas versões.

A primeira, com letra e música frutos apenas da inspiração de Belchior, não é conhecida. Era cantada, pelo autor, em encontros boêmios de Fortaleza, principalmente, no Bar do Anísio, localizado na praia que deu o título à música e nas rodas de músicas do chamado “pessoal do Ceará”, grupo de talentosos artistas cearenses que faria história na MPB.

Posteriormente, Fagner fez uma nova versão em cima da mesma letra. Esta ficaria famosa ao ser gravada por dois monstros da MPB: Roberto Carlos e Elis Regina, se tornando a definitiva.

Fagner
Belchior, no livro, “No tom da canção cearense – Do rádio, e TV, dos lares e bares na era dos festivais (1963-1979)”, do historiador cearense Wagner Castro, conta como se inspirou para fazer a música:

“Mucuripe” veio da ideia de fazer desde um filme antigo em que vi aconselhando a mulher de um marinheiro: dizendo que ela deixasse receber todos os seus sofrimentos, todas as suas mágoas [...] Então resolvi fazer uma música sobre isso; a questão do Mucuripe, do significado do nome e porque naquela altura Mucuripe era um local muito poético, com suas dunas [...].

Já a versão posterior de Fagner foi vencedora do Festival do CEUB de Brasília. O próprio Belchior admite, no citado livro, que a versão do conterrâneo era melhor que a sua:

“[...] Eu fiz um scanner de “Mucuripe”, com letra e música e depois o Raimundo Fagner fez uma música bem melhor que a minha [...]. Depois, com muito prazer, eu deixei de cantar a minha”.

Belchior
Belchior aproveitou para fechar a música com uma conhecida frase de Augusto Pontes. “Vida, vento, vela, leva-me daqui” se ajustou com perfeição ao enredo da música se tornando um dos seus pontos fortes. Augusto, uma espécie de guru do pessoal do Ceará, declarou, em uma entrevista de 2006, não se importar com o uso do seu verso: “[...] Eu considero isso uma homenagem, não faz mal nenhum terem usado não.[...]Nunca pedi parceria por isso. São todos grandes amigos, é natural que um use uma frase ou outra [...]”.

Outra curiosidade sobre a música: em torno de 1972, Fagner chegou a morar na casa de Elis Regina, que se tornara sua amiga. Naquele tempo, o cearense de Orós estava prestes a gravar o seu primeiro LP “Manera Fru-Fru”, quando conheceu Ivan Lins por meio de Elis. A convite de Fagner, Ivan, que na época ainda não tinha grande vivência em arranjos, mas se mostrava um estudioso de música, se transformou, curiosamente, no primeiro arranjador da versão gravada de "Mucuripe".

Fonte: drzem.blogspot

"MUCURIPE"
(Belchior / Fagner)

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar
Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor

Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor

Aquela estrela é dela
Vida vento vela leva-me daqui
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vão levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar

Hoje à noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo inda era flor

Sob o meu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor

Aquela estrela é dela
Vida vento vela leva-me daqui
Aquela estrela é bela
Vida vento vela leva-me daqui.











Seu Amor Ainda É Tudo

É considerada uma balada sertaneja composta por Moacyr Franco (1936).

Nos anos 80, a balada internacional encontra uma afinidade muito grande no meio artístico da música sertaneja. A balada é uma canção sentimental erótica, disseminada pela indústria cultural, cujo interprete internacional mais famoso no Brasil é Júlio Iglesias. A balada é escrita geralmente num compasso quaternário composto, tem uma melodia ondulada bastante ampla, e usa freqüentemente um acompanhamento harpejado feito por piano e cordas. A canção "Seu amor ainda é tudo", de Moacyr  Franco, exemplifica bem esta tendência.

Moacyr Franco
Essa música foi gravada em 1982 e lançada em disco compacto ( com ¨Pedágio¨ no outro lado do disco) . Alguns anos depois Moacyr foi procurado pelo cantor Marciano. Este se  disse um grande admirador de Moacyr e pediu autorização para gravar, com seu companheiro João Mineiro, ¨Seu amor ainda é tudo¨; O disco foi lançado com a musica em 1986 e foi o mais vendido do ano, recebendo cinco discos de ouro e dois de Platina e um duplo de platina. Nessa época cada disco de ouro equivalia a 100 mil cópias dos Lps.

A canção apresentou diversas gravações, dentre as quais destacaram-se as do próprio compositor, de Agnaldo Timóteo e a da dupla João Mineiro e Marciano, de 1986.

Esteve presente na trilha sonora da novela "Estrela de Fogo"(1998/1999) da rede Record, em uma gravação de Roberta Miranda.

"SEU AMOR AINDA É TUDO"
(Moacyr Franco)

Muito prazer em revê-la, você está bonita
Muito elegante, mais jovem, tão cheia de vida
Eu ainda falo de flores e declamo seu nome
Mesmo os meus dedos me traem, discam o seu telefone

É minha cara, eu mudei, minha cara
Mas por dentro eu não mudo
O sentimento não para, a doença não sara
Seu amor ainda é tudo, tudo

Daquele momento até hoje esperei você
Daquele maldito momento até hoje, só você
Eu sei que o culpado de não ter você sou eu
E esse medo terrível de amar outra vez é meu

Sei não devia dizer, disse perdoa
Bem que eu queria encontrá-la e sorrir numa boa
Mas convenhamos, a vida nos faz tão pequenos
Nos preparamos pra muito e choramos por menos

É minha cara eu mudei, minha cara,
Mas por dentro eu não mudo
O sentimento não para, a doença não sara
Seu amor ainda é tudo, tudo

Daquele momento até hoje esperei você
Daquele maldito momento até hoje, só você
Eu sei que o culpado de não ter você sou eu
E esse medo terrível de amar outra vez é meu.

Fonte: História da Música Sertaneja.












Eu Só Quero Um Xodó

É uma toada de Dominguinhos (1941-2013) e Anastácia (1941) do ano de 1962 e que conta com mais de 400 regravações no Brasil e no exterior (segundo Anastácia). Dentre as gravações em outras línguas, destacam-se o inglês, o holandês e o italiano.

Anastácia conta que em 1962 compôs a música que fez sucesso nacionalmente, principalmente na voz de Gilberto Gil, em 1973. A letra é dela e a melodia, de Dominguinhos. “A gente morava em São Paulo e, quando chegava perto do São João os cantores ficavam pedindo música. A gente tinha uma máquina de fazer música nordestina. Eu tava fritando um peixinho pro almoço quando a melodia me chamou a atenção e eu comecei a fazer o esboço de uma letra”, relembra ela.


Dominguinhos

Anastácia

EU SÓ QUERO UM XODÓ
(Anastácia / Dominguinhos)

Que falta eu sinto
De um bem
Que falta me faz
Um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só
Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó pra mim
Do meu jeito assim
Que alegre o meu viver.













Tico Tico no Fubá

O choro "Tico-tico no Fubá" é uma composição original de Zequinha de Abreu(1880-1935) do ano de 1917. Posteriormente, em 1931, recebeu letra criada por Eurico Barreiros e Aloysio de Oliveira (1914-1995).

A música foi um dos maiores sucessos da década de 1940 e fez parte da trilha sonora de cinco filmes americanos: "Alô Amigos", "A Filha do Comandante", "Escola de Sereias", "Kansas City Kity" e "Copacabana", quando o choro foi cantado por Carmen Miranda.

Zequinha de Abreu
Em 1917, durante um baile na cidade de Santa Rita do Passa Quatro, Zequinha apresentou um choro e ficou surpreso com a reação entusiasmada dos pares de dança. Batizou a música de "Tico-Tico no Farelo", mas, como já existia um choro com o mesmo nome na época (composto por Américo Jacomino), resolveu pôr "Tico-Tico no Fubá". Apesar da boa acolhida, o choro só seria gravado quatorze anos depois, pela Orquestra Colbaz, dirigida pelo maestro Gaó. Interpretada por dezenas de artistas, tornou-se um dos maiores sucessos da música brasileira no século 20, inclusive no exterior.

A partir de então, recebeu dezenas de gravações, tornando-se uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no país e no exterior, salientando-se entre seus intérpretes a organista Ethel Smith, que a levou ao hit-parade americano.

Aloysio de Oliveira
Sua gravação de maior sucesso foi a de Ademilde Fonseca.

Dezessete anos após a morte de Zequinha, os cineastas Fernando de Barros e Adolfo Celi e a Companhia Vera Cruz homenagearam o compositor com o filme "Tico-Tico no Fubá" (1952) com Anselmo Duarte e Tônia Carrero nos principais papéis.

Fonte: UOL Educação.

TICO-TICO NO FUBÁ
(Zequinha de Abreu / Eurico Barreiros / Aloysio de Oliveira)

Primeira Parte
Um tico-tico só,
Um tico-tico lá,
Está comendo
Todo, todo meu fubá.

Olha, Seu Nicolau,
Que o fubá se vai,
Pego no meu pica-pau
E um tiro sae.

Coitado...
Então eu tenho pena
Do susto que levou
E uma cuia se ia,
Mais fubá eu dou.

Alegre já,
Voando, piando,
Meu fubá, meu fubá,
Saltando de lá pra cá.

Segunda Parte (Declamado)

Tico-tico engraçadinho
Que está sempre a piar,
Vá fazer o teu ninho
E terás assim um lar.

Procure uma companheira
Que eu te garanto o fubá,
De papada sempre cheia
Não acharás a vida má.

Terceira Parte

Houve um dia lá
Que ele não voltou,
E seu gostoso fubá
O vento levou.

Triste fiquei,
Quase chorei,
Mas então vi
Logo depois,
Já não eram um,
Mas sim já dois.

Quero contar baixinho
A vida dos dois,
Tiveram seu ninho
E filhotinhos depois.

Todos agora
Pulam ali,
Saltam aqui,
Comendo sempre o fubá
Saltando de lá para cá.






























Menina da Ladeira

“Menina da Ladeira” é uma composição de João Evangelista Melo Fortes, conhecido artisticamente como João Só (1943-1992).

Os versos de “Menina da Ladeira” tocaram sem parar durante todo o ano de 1971. "Fico feliz de ter ficado em primeiro lugar, na frente de Jesus Cristo, do meu amigo Roberto Carlos", orgulhava-se João Só. Anos depois, Roberto Carlos continuava Rei, “Menina da Ladeira” foi regravada mais tarde em um disco de Neguinho da Beija-Flor, mas passou despercebida. João Só é lembrado somente em programas de flash back.

A canção tornou-se um sucesso inesquecível. Houve uma época que ele tentou se livrar desta homenagem que fez em 1968 para as meninas de Salvador. Consagrado por "Menina da Ladeira", ele explicava que a música tinha sido inspirada pelas ladeiras que compõe o quadro da cidade de Salvador, onde o artista passou a maior parte de sua vida. "Quando a menina que subia e descia a ladeira era a figura da universitária no tempo da faculdade trafegando pela ladeira do Bonfim e a do Pelourinho". Depois do estouro do compacto simples, em 1971, a Odeon produziu um LP e dois compactos duplos de João. Em todos incluiu “Menina da Ladeira”. Haja sucesso! "Ela ofuscava todas as outras faixas. Quando ia nas rádios, ninguém queria saber do resto do disco." João ficava calado, aproveitava para fazer shows e programas de tevê. Até que cansou. "Se eu tivesse continuado naquele ritmo de toada, estava emplacando até hoje."

João Só concebeu esta música de uma maneira muito natural e espontânea. Diz que após participar de um jantar oferecido aos profissionais de publicidade num dos restaurantes da Ribeira, onde se localizava o antigo aeroporto, começou a tocar o violão e cantar alguns versos. Já sozinho e com a casa fechando as portas, desenvolveu todo o tema da música: "Parecia até que era um trabalho antigo, conhecido". Quando chegou em casa, gravou tudo para não esquecer. No outro dia, viu que quase nada precisava ser mudado.

João Só
João Só radicalizou. Saiu da Odeon e começou a fazer samba-canção e bolero. Não deu certo. Em 1978 trocou o Rio por São Paulo, onde ficou até 1984. Voltou para Salvador. Os 12 meses ininterruptos de sucesso não garantiram ao compositor um futuro tranquilo. Até o segundo semestre de 1972, quando a música já tinha caído para o oitavo lugar, João não recebeu um centavo de direito autoral. "O autor tinha que se filiar a uma entidade que arrecadaria os direitos, mas eu não sabia", dizia. "Perdi muito dinheiro por não me cercar das pessoas certas."

MENINA DA LADEIRA
(João Só)

Menina que mora na ladeira
Que desce a ladeira sem parar
Debaixo do pé da laranjeira
Se senta prá poder descansar

Silêncio profundo a menina dormiu
Alguém quem esperava
Tão logo partiu
Partiu para sempre para o infinito
Um grito ouviu

Chorando levanta a menina
Correndo ligeiro sem parar
Debaixo do pé da laranjeira
Há sempre um alguém a esperar

Violeiro tocando estrela brilhar
Violeiro em prece
Em prece ao luar,luar
E tal noite vazia espera a menina
Tão linda não vai.







Adeus, Batucada

Apresentado à Carmen Miranda através do amigo Assis Valente, Synval Silva (1911-1994) compôs “Adeus, batucada” (1935) como uma espécie de tributo à farra que ele desde criança aprendeu a adorar, e agora passa adiante para que outros passem a admirá-la: “E do meu grande amor sempre eu me despedi sambando...” poetiza o compositor perene; compõe o poeta latente.

Entusiasmada com o samba "Coração", Carmen Miranda propôs ao autor, Synval Silva: "Se você me trouxer uma música que alcance a metade do sucesso de ‘Coração', eu lhe darei três contos de réis". E Synval trouxe-lhe "Adeus Batucada", que suplantaria "Coração" e outros sucessos, tornando-se um dos números mais representativos de seu repertório. A canção foi gravada por Carmen com acompanhamento da Orquestra Odeon.

Synval Silva
Choroso, sentimental, um belo canto de despedida ( "Adeus! Adeus! Meu pandeiro do samba / tamborim de bamba, já é de madrugada / vou-me embora chorando..."), "Adeus Batucada" foi executado no carrilhão da Mesbla, por ocasião do funeral de Carmen Miranda.

O samba esteve presente na trilha sonora da novela "Escalada" (1975 - Carmen Miranda) e da minissérie A,E,I,O...Urca (1990 = Carmen Miranda).

ADEUS, BATUCADA
(Synval Silva)

Adeus, adeus
Meu pandeiro do samba
Tamborim de bamba
Já é de madrugada

Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada

Adeus, adeus
Meu pandeiro do samba
Tamborim de bamba
Já é de madrugada

Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada

Em criança com samba eu vivia sonhando
Acordava e estava tristonha chorando

Joia que se perde no mar
Só se encontra no fundo
Samba mocidade
Sambando se goza
Nesse mundo

E do meu grande amor
Sempre eu me despedi sambando
Mas da batucada agora me despeço chorando
E guardo no lenço esta lágrima sentida
Adeus batucada
Adeus batucada querida.

Fonte: MPB Cifrantiga.


















O Mundo É Um Moinho

Esta é mais uma composição do grande mestre Cartola, Angenor de Oliveira (1908-1980).

Há uma grande polemica sobre a composição de "O mundo é um moinho" que Cartola compôs para sua filha adotiva, a cantora já falecida Creusa Cartola (Creusa Francisca dos Santos). Porém, de acordo com relatos anteriores, teria sido composta para a filha prostituta do compositor. Mas, segundo relato da filha mais velha de Creusa, Irinéa dos Santos ( 1927-2002), Cartola compôs essa música baseado em sua passagem pela adolescência, e com a curiosidade normal de uma púbere de 16 anos por namoros. O compositor então expressou sua preocupação como qualquer pai em relação a uma menina adolescente, e resolveu assim fazê-lo através desta composição, que é uma das mais importantes dentre seu acervo.

A canção foi gravada em 1976 por Cartola. Posteriormente recebeu inúmeras regravações, de Nelson Gonçalves a Cazuza, dentre tantos outros.

Cartola
Muitos cantores, inclusive Cazuza, cantam um trecho de modo diferente do original, composto por Cartola. Cazuza diz: ¨vai triturar teus sonhos tão mesquinhos¨, afirmando assim que os sonhos são mesquinhos. Já Cartola (e assim também gravou Ney Matogrosso) canta: ¨vai triturar teus sonhos, tão mesquinho¨, no singular, qualificando assim o mundo de mesquinho.

O MUNDO É UM MOINHO
(Cartola)

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.